1 de novembro de 2010

Usufruto



- Então diz que me ama!
- Calma mano, você tá louca? As coisas não são simples assim.
- Você me ama, sabe que me ama. Porque que você faz tudo isso então? Eu te amo sabia? Como é se sentir amado? Diz pra mim? Diz alguma coisa?
- Obrigado.
- Obrigado o caralho. Enfia seu obrigado no seu cu. Eu não aguento mais seu medo idiota. Era isso que você queria? Conseguiu. Eu vou embora. Você temia isso? não né.
- Calma Lu...
- Calma o cacete - aqui começou, a contragosto, a chorar - faz mais mal do que bem. Sempre eu que faço tudo, sabe, eu que tenho que ir onde você está, eu que tenho que sair com o seus amigos, sei lá. Acha alguém. Vai lá. Come alguém que não sabe seu sobrenome.
Ele, perdendo suas resguardas, vacilou, e acabou por apelar ao que entendia por orgulho.
- Vai então. Você lembra meu telefone.
A angústia de não saber bem o que fazia era menor que uma sensação boa que a dominava por inteira. Não sabia bem porque. Mas estava convicta na sua atitude.
Estranho esse negócio de destino.
Só ouvira uma buzina. Perto demais.
Nem sentiu a batida. O frio na barriga que dá nessas horas cuida da gente. Adrenalina. Lembrava do colégio.
Quando caiu no chão a cabeça latejou bastante. Não parecia um baque, parecia que pressionavam alguma cosia pontuda nela. O chão quente. Uma sensação estranha. Aquela resignação forçada de que fizera uma grande merda, mas que não tinha muito o que se fazer.
Assim, bem de repente, tudo perdeu a razão. O emprego novo que tanto a animava parecia tão distante, henrique, as brigas com a irmã. Parecia tudo tão distante, e distante.
Perdera a conta, parecia, não sabia, que fazia horas que estava ali no chão. Será que ninguém reparou? Precisava levantar. Mas parecia que uma preguiça incontrolável tomara conta dela.
Pode ouvir então o Henrique chegando. Gritando alguma coisa. Muitas coisas. Só queria levantar. Viu henrique se ajoelhar, tentou olhar.
- Eu te amo, Lu, meu deus, eu te amo.
Veio uma vontade de dormir um pouco. Veio uma vontade de que Henrique calasse a boca. Idiota, filha da puta. Só queria dormir.
Isso. Logo a levariam para o hospital e estaria tudo bem amanhã. Dona Vilma entenderia, certeza.
Um escuro leve, sem sentido, e logo depois o nada.
JOÃO CAMPOS NUNEs

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